A Mão e a Luva - Machado de Assis

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alguma vermelhidão nos olhos, e adivinhou, — não era difícil, — que houvesse
chorado. Pobre rapaz! suspirou ele mentalmente. Dali foram os dois para o
quarto, que era uma vasta sala, com três camas, cadeiras de todos os feitios,
duas estantes com livros e uma secretária, — vindo a ser ao mesmo tempo,
alcova e gabinete de estudo.
O chá subiu daí a pouco. Estevão, a muito rogo do hóspede, bebeu dois goles;
acendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento, enquanto Luís
Alves, preferindo um charuto e um sofá, acendeu o primeiro e estirou-se no
segundo, cruzando beatificamente as mãos sobre o ventre e contemplando o bico
das chinelas, com aquela placidez de um homem a quem se não gorou nenhum
namoro. O silêncio não era completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam
fora; no aposento, porém, o único rumor era dos botins de Estevão na palhinha
do chão.
Cursavam estes dois moços a academia de São Paulo, estando Luís Alves no
quarto ano e Estevão no terceiro. Conheceram-se na academia, e ficaram amigos
íntimos, tanto quanto podiam sê-lo dois espíritos diferentes, ou talvez por isso
mesmo que o eram. Estevão, dotado de extrema sensibilidade, e não menor
fraqueza de ânimo, afetuoso e bom, não daquela bondade varonil, que é
apanágio de uma alma forte, mas dessa outra bondade mole e de cera, que vai à
mercê de todas as circunstâncias, tinha, além de tudo isso, o infortúnio de trazer
ainda sobre o nariz os óculos cor-de-rosa de suas virginais ilusões. Luís Alves via
bem com os olhos da cara. Não era mau rapaz, mas tinha o seu grão de egoísmo,
e se não era incapaz de afeição, sabia regê-las, moderá-las, e sobretudo guiá-las
ao seu próprio interesse. Entre estes dois homens travara-se amizade íntima,
nascida para um na simpatia, para outro no costume. Eram eles os naturais
confidentes um do outro, com a diferença que Luís Alves dava menos do que
recebia, e, ainda assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança.
Estevão referira ao amigo, desde tempos, toda a história do amor, agora
malogrado, suas esperanças, desalentos e glórias, e, enfim, o inesperado
desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capítulo mais delicioso do romance — no
sentir dele — caiu de toda a altura das ilusões na mais dura, prosaica e miserável
realidade.
A namorada de Estevão, — é tempo de dizer alguma coisa dela, — era uma moça
de 17 anos, e, por ora, simples aluna-professora no colégio de uma tia do nosso

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