A Mão e a Luva - Machado de Assis

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forte que nunca.
Luís Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolação; o acesso passou; nova
palestra, novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando as horas da
noite, que o relógio da sala de jantar, batia seca e regularmente, como a lembrar
aos dois amigos que as nossas paixões não aceleram nem moderam o passo do
tempo.
A aurora para os dois acadêmicos coincidiu com as badaladas do meio-dia, o que
não admira, pois só adormeceram quando ela começava a apagar as estrelas.
Estevão passou a noite, — a manhã, quero dizer, — muito sossegado e livre de
sonhos maus. Quando abriu os olhos estranhou o aposento e os objetos que o
rodeavam. Logo que os reconheceu, despertou-se-lhe, com a memória, o
coração, onde já não havia aquela dor aguda da véspera. Os sucessos, embora
recentes, começavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.
A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não só do
que ama, mas também (força é dizê-lo) do que come. Sirva isto de escusa ao
nosso estudante, que almoçou nesse dia, como nos anteriores, bastando dizer em
seu abono que, se o não fez com lágrimas, também o não fez alegre. Mas o certo
é que a tempestade serenara; o que havia era uma ressaca, ainda forte, mas que
diminuiria com o tempo. Luís Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Estevão foi o
primeiro a recordar-se dela.
— Dá tempo ao tempo, respondeu Luís Alves, e ainda te hás de rir dos teus
planos de ontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres escapado tão
depressa. E queres um conselho?
— Dize.
— O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, cortedourado,
muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de
pêsames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a epístola no
fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ela tem um post scriptum...
Estevão aplaudiu a metáfora com um sorriso de bom agouro.
Duas vezes viu ele a formosa Guiomar, antes de seguir para São Paulo. Da
primeira sentiu-se ainda abalado, porque a ferida não cicatrizara de todo; da
segunda, pôde encará-la sem perturbação. Era melhor, — mais romântico pelo
menos, que eu o pusesse a caminho da academia, com o desespero no coração,
lavado em lágrimas, ou a bebê-las em silêncio, como lhe pedia a sua dignidade
de homem. Mas que lhe hei de eu fazer? Ele foi daqui com os olhos enxutos,
distraindo-se dos tédios da viagem com alguma pilhéria de rapaz, — rapaz outra
vez, como dantes.

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