A Mão e a Luva - Machado de Assis

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verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.
Posto fizesse boa figura na academia, mais prezava do que amava a ciência do
direito. Suas preferências intelectuais dividiam-se, ou antes abrangiam a política
e a literatura, e ainda assim, a política só lhe acenava com o que podia haver
literário nela. Tinha leitura de uma e outra coisa, mas leitura veloz e à flor das
páginas. Estevão não compreenderia nunca este axioma de lorde Macaulay — que
mais aproveita digerir uma lauda que devorar um volume. Não digeria nada; e
daí vinha o seu nenhum apego às ciências que estudara. Venceu a repugnância
por amor-próprio; mas, uma vez dobrado o Cabo das Tormentas disciplinares,
deixou a outros o cuidado de aproar à Índia.
Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer em gérmen, não só porque
lhe minguava o apoio necessário para as arvorecer e frutificar, mas ainda porque
ele não tinha em si a força indispensável a todo o homem que põe a mira acima
do estado em que nasceu. Eram aspirações vagas, intermitentes, vaporosas,
umas visões legislativas e ministeriais, que tão depressa lhe namoravam a
imaginação, como logo se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos,
que esses, sim, amava-os ele deveras. Opiniões não as tinha; alguns escritos que
publicara durante a quadra acadêmica eram um complexo de doutrinas de toda a
casta, que lhe flutuavam no espírito, sem se fixarem nunca, indo e vindo,
alçando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a atual disposição de
espírito.
Por agora militava nas fileiras do lagruísmo, com ardor, dedicação e fidelidade de
bom apóstolo. Não era abastado para pagar o luxo de uma opinião lírica; nascera
pobre e não tinha parente em boa posição. Alguns poucos recursos possuía,
provenientes do seu ofício de advogado, que exercia com o amigo Luís Alves.
Uma noite assistira à representação de Otelo, palmeando até romper as luvas,
aclamando até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite satisfeito dos seus e de si.
Terminado o espetáculo, foi ele, segundo costumava, assistir à saída das
senhoras, uma procissão de rendas, e sedas, e leques, e véus, e diamantes, e
olhos de todas as cores e linguagens. Estevão era pontual nessas ocasiões de
espera, e raro deixava de ser o último que saía. Tinha agora os olhos pregados
em outros olhos, não pardos como os dele, mas azuis, de um azul-ferrete,
infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguém bater-lhe no ombro, e
dizer-lhe baixinho estas palavras:

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