A Mão e a Luva - Machado de Assis

Categorias: 


— Larga o pinto, que é das almas.
Estevão voltou-se.
— Ah! és tu! disse ele vendo Luís Alves. Quando chegaste?
— Hoje mesmo, respondeu o colega; venho sequioso de música. Vassouras não
tem Lagrua nem Otelo...
— Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estevão, que, ainda falando
em prosa, cultivava as suas metáforas poéticas. Fizeste bem; não te perdoaria se
preferisses a outra, a lambisgóia, que aqui nos querem impingir por grande coisa,
e que não chega aos calcanhares do buço...
Interrompeu-se. Luís Alves acabava de cumprimentar cerimoniosamente alguém
que passava; Estevão volveu a cabeça para ver quem era. Era uma moça, que ele
não chegou a ver, porque já descia as escadas; mas tão elegante e gentil que os
olhos lhe fuzilaram de admiração.
— Algum namoro? perguntou ao amigo.
— Não; uma vizinha.
A desfilada acabou; saíram os dois e foram dali cear a um hotel, seguindo depois
para Botafogo, onde morava Luís Alves, desde que perdera a mãe, alguns meses
antes.
A casa de Luís Alves ficava quase no fim da praia de Botafogo, tendo ao lado
direito outra casa, muito maior e de aparência rica. A noite estava bela, como as
mais belas noites daquele arrabalde. Havia luar, céu límpido, infinidade de
estrelas e a vaga a bater molemente na praia, todo o material, em suma, de uma
boa composição poética, em vinte estrofes pelo menos, obrigada a rima rica, com
alguns esdrúxulos rebuscados nos dicionários. Estevão poetou, mas poetou em
prosa, com um entusiasmo legítimo e sincero. Luís Alves, menos propenso às
coisas belas, preferia a mais útil de todas naquela ocasião, que era ir dormir. Não
o conseguiu sem ouvir ao hóspede tudo quanto ele pensava acerca daquele
"pinto, que era das almas", aqueles olhos azuis, "profundos como o céu",
exclamava Estevão.
Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os tais olhos o perseguissem,
ainda em sonhos, ou porque estranhasse a cama, ou porque o destino assim o
resolvera, a verdade é que Estevão dormiu pouco, e, coisa rara, acordou logo
depois de aparecer a arraiada.
A manhã estava fresca e serena; era tudo silêncio, mal quebrado pelo bater do
mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chácaras da vizinhança. Estevão, amuado
por não poder conciliar o sono, resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto.
Ergueu-se de manso, lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao
jardim, para onde foi sobraçando um livro que acaso topou ao pé da cama.

Páginas